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Como lidar com as diferenças é tema de debate com estudos de caso no Educação 360

Como lidar com as diferenças é tema de debate com estudos de caso no Educação 360

11/10/2017   publicado por: edeas

RIO – “Meu nome é Mohamed e estou no Brasil desde 2014. Fui muito bem recebido e gosto muito da escola”. Tímido e falando com português perfeito, o menino sírio de 10 anos representou os alunos imigrantes e refugiados da Escola Municipal de Ensino Fundamental Infante Dom Henrique na mesa de estudos de caso sobre a diversidade no “Educação 360”. O projeto de acolhimento de estrangeiros do colégio de São Paulo foi um dos quatro exemplos bem sucedidos de como lidar com as diferenças dentro da sala de aula apresentados na manhã desta sexta-feira no evento realizado pelos jornais O Globo e Extra.

O “Escola Apropriada” é o maior dos 28 projetos para a diversidade da EMEF Infante Dom Henrique – que até o final do ano passará a se chamar Maria Carolina de Jesus -, onde mais de 21% dos 530 alunos não são brasileiros. O projeto reúne, a cada 15 dias, todos os imigrantes e descendentes de estrangeiros matriculados para debater temas pertinentes ao universo deles e ouvir seus problemas e necessidades.

O coordenador do projeto, César Luís Sampaio, contou que Mohamed chegou ao Brasil em abril de 2014, mas só conseguiu entrar na escola em outubro, ficando cindo meses sem estudar. Quando chegou à EMEF Infante Dom Henrique, descobriu-se que ele já estava matriculado na rede estadual, mas a família não havia sido avisada, possivelmente, porque a unidade temia a barreira do idioma árabe. O menino foi convidado a assistir às aulas na escola municipal mesmo antes da regularização da matrícula. E não achou difícil aprender o português.

– O colégio está integralmente preparado para receber imigrantes, desde os funcionários da recepcão, a professores e outros alunos estrangeiros, que fazem o acolhimento para quebrar o choque de quem vem de outra cultura, especialmente em situação de refúgio – afirmou o professor. – Precisamos ter olhar mais atendo e sensível a esse público.

Já o diretor da escola, Cláudio Neto, ressaltou que o idioma não atrapalha o projeto pedgógico de inclusão da escola, que conta com alunos da Síria, Bolívia, Colômbia, entre outros países.

– Não há impedimento algum quando existe acolhimento no ambiente escolar. Não basta a escola ser democrática, ela precisa promover a democracia e assegurar o direto desses sujeitos à educação.

Outra pauta atual da sociedade, as questões de gênero, támbém foi destacada na mesa. A professora do Centro de Ensino Fundamental 12 de Ceilândia, periferia de Brasília, Gina Albuquerque contou como conseguiu engajar os alunos em uma campanha contra a objetificação da mulher depois de se deparar com conteúdos altamente sexualizados produzidos e postados nas redes sociais por uma aluna de 13 anos.

– Entendi que precisava apresentar às meninas referenciais femininos diferentes dos corpos objetificados presentes na grande mídia, provocando uma interferência que não fosse moralista, castradora ou machista.

As meninas foram incentivadas a ler obras de autoras femininas, como Anne Frank e Malala Yousafzai, estudar biografias de mulheres de destaque em várias áreas, como Maria da Pena e Nise da Silveira, e, por fim, entrevistar e escrever sobre as mulheres inspiradoras de suas vidas: mães, avós e bisavós.

– A nossa cultura valoriza tao pouco o que as mulheres fazem, que nem elas sabem o quão extraordinário é. Os estudantes perceberam que era devido ao trabalho daquelas mulheres que estavam com uniforme em dia, alimentados e frequentando a escola. Conseguimos transformar os textos em livro, que mostra a realidade de Ceilância, em Brasília, contada por um sujeito histórico que não é normalmente chamado a contar sua versão.

O projeto ganhou o 1º Prêmio Iberamericano de Educação e Direitos Humanos, entre outros prêmios, e recebeu aporte para que chegasse a outras 15 escolas do Distrito Federal. Cada escola contemplada recebe um pequeno acervo de obras de autoria feminina e material para trabalhar o tema em classe.

Já no Centro de Ensino da Asa Norte de Brasília (CEAN), a questão do gênero é tratada pelo viés da identidade e orientação sexual. A diretora Graça de Paula inseriu no projeto pedagógico da unidade atividades de garantia ao acesso à educação e à visibilidade a todos os alunos da escola, independente de gênero. A partir da observação de casos de bullying, a escola passou a promover oficinas voltadas para a construção de uma política LGBTQ na instituição, além de incentivar manifestações de alunos, participação em ventos públicos de apoio a causa e criar um dia de combate à homofobia interno.

– A gente às vezes coloca as pessoas na caixinha, e se confroma em ver gay ou o transgênero maquiador, designer de moda, etc. Mas cadê o trans professor, nos tribunais, nas grandes empresas? Continuamos a dizer a essas pessoas que elas existem e devem assumir seus espaços de direito na sociedade – afirmou.

A causa passou a ser uma das prioridades da escola, e foi estampada nos uniformes e em espaços comuns, como na escada de acesso pintada com as cores do arco-íris, símbolo da luta LGBT, e os dizeres “pise na homofobia”. O aluno transgênero Mickael Pederiva, de 16 anos, participou da palestra, contando brevemente a sua experiência no ambiente escolar.

– Me descobri enquanto homem trans há dois anos e tive dificuldades de encontrar um colégio que aceitasse o uso do nome social ou onde me sentisse seguro ao usar o banheiro – lembrou o participante da Rede Nacional de Adolescentes LGBTs, entidade que lançará livro em breve.

Artevista

Já o autodenominado “artevista” Leno Ricardo Vidal, professor da EMEF José de Alcântara Machado Filho, falou sobre o projeto “Eu venho do mundo – raízes Pankararu”, que promove manifestações artísticas como forma de resgate histórico da cultura indígena na escola da zona Sul de São Paulo. Segundo ele, a comunidade de Real Parque, onde a escola está instalada, abriga cerca de 700 famílias Pankaruru, e há cerca de 300 estudantes da etnia na escola.

– O Pakararu é um indígena negro, e ele não se sentia pertencente à escola. O projeto trouxe de volta as tradições desse povo. O índio não pode ser uma temática, discutida eventualmente, só em 19 de abril. Precisa ser parte integrante do currículo e ser lembrado durante todo o ano, em um processo de descolonização curricular.

O projeto promove atividades como a produção de tapioca com grafismos indígenas, pintura corporal e meditação com raízes, além de ter construído um memorial indígena Pankararu dento da escola. Índios de diferentes etnias são convidados a apresentar suas culturas no local, visitado também por crianças de outras instituições de ensino.

A Secretária de Estado de Educação de Macaé, Maria Evaristo da Costa, que comentou os casos, acredita que educadores atentos às questões da diversidade precisam ser incentivados e apresentados a outros colegas como exemplos de sucesso.

– Nossa sociedade foi construída para hierarquizar as pessoas, criando esteriótipos para colocar uns acima dos outros. É muito difícil nesse momento sustentar princípios fundamentais da constituição que alguns setores querem rasgar para manter a segregação. Precisamos ter coragem e criar espaços como os dessas escolas, que estão de fato querendo construir a democracia.

O evento é uma realização de O Globo e Extra, com parceria do Sesc, patrocínio da Fundação Telefônica, do colégio pH e Fundação Itaú Social, apoio da Unesco e Unicef e parceria de mídia da TV Globo, Canal Futura, revista Crescer, revista Galileu e TechTudo.

 

Fonte: Extra.Globo

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